sábado, abril 1, 2023
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Pesquisa aponta que consumo de ultraprocessados aumenta em quase 30% a perda cognitiva

Um verdadeiro alerta. Assim chama atenção o estudo recente divulgado pela Universidade de São Paulo (USP) para o resultado da pesquisa realizada por cientistas da Faculdade de Medicina da USP, que consideraram dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa-Brasil), em um trabalho que vem sendo desenvolvido há 14 anos e que envolve um universo de 15 mil pessoas ligados às instituições que constituem a Elsa-Brasil.

Em termos práticos, o trabalho científico aponta que produtos como embutidos, sucos artificiais, bolachas, pratos prontos que possam imitar refeições, caso de lasanhas congeladas e nuggets, além do conhecido macarrão instantâneo, itens categorizados como alimentos ultraprocessados, quando consumidos frequentemente contribuem para o declínio cognitivo.

E assim ficou demonstrado pelos resultados da pesquisa: a queda cognitiva ao longo da vida foi 28% maior entre os participantes, que consumiram mais de 20% das calorias diárias em ultraprocessados. Isso equivale, por exemplo, a comer três pães de forma todos os dias.

CONFERÊNCIA

Os dados foram apresentados durante a Conferência Internacional da Associação de Alzheimer, que ocorreu entre 31 de julho e 4 de agosto, em San Diego, nos Estados Unidos.

ELSA- BRASIL

O Elsa-Brasil é um estudo epidemiológico nacional realizado desde 2008 por várias instituições como a USP, UFES, Fiocruz, UFBA, UFMG e UFRGS, que acompanha o estado de saúde de cerca de 15 mil funcionários. A ideia é investigar a incidência e fatores de risco para doenças crônicas, em particular, as cardiovasculares (acidente vascular cerebral, hipertensão, arteriosclerose, infarto) e outras associadas.

MORTALIDADE

Os participantes, com idades entre 35 e 74 anos, são de várias regiões do País. Agora em agosto, eles serão novamente convocados para entrevistas e exames que identifiquem uma possível evolução dos fatores de risco para essas doenças, consideradas a principal causa de mortalidade no Brasil e no mundo.

O DESEMPENHO COGNITIVO

Entre vários outros aspectos da saúde, o Elsa é o estudo com a maior amostra e o maior tempo de avaliação da performance cognitiva no Brasil. Os dados das três primeiras ondas (entre 2008 e 2010, 2012 e 2014 e de 2017 a 2018) embasaram uma série de artigos que encontraram associações de piora do desempenho cognitivo com diversos fatores, como, por exemplo, enxaquecas, consumo de álcool, inflamação e, principalmente, doenças vasculares como hipertensão.

ESTRESSE E A COGNIÇÃO

Fatores sociais também se mostram relevantes: um dos artigos mostrou que a adesão à dieta MIND (Mediterranean-DASH Intervention for Neurodegenerative Delay), criada para reduzir o risco de doenças que afetam a memória e a mente, só mostrou eficiência nesse objetivo em pacientes de alta renda, com melhores condições materiais de se alimentar de forma saudável. Em outro, os pesquisadores observaram que o estresse relacionado à rotina de trabalho também está associado ao declínio cognitivo.

Durante a conferência em San Diego, a equipe do Elsa apresenta dois novos estudos longitudinais, ainda não publicados, baseados no acompanhamento dos participantes durante as três primeiras ondas, que identificaram dois fatores que contribuem para o declínio do desempenho cognitivo ao longo do tempo: o consumo de ultraprocessados e o impacto do acúmulo de gordura nas artérias.

CONSUMO DE ULTRAPROCESSADOS

O estudo sobre ultraprocessados foi realizado pela pesquisadora Natália Gonçalves em colaboração com outros integrantes do Elsa, inclusive, o grupo de pesquisa do professor Carlos Augusto Monteiro, coordenador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), da Faculdade de Saúde Pública (FSP), um dos órgãos diretamente envolvidos na elaboração do Guia Alimentar para a População Brasileira.

A pesquisa utilizou os dados de 10.775 pessoas coletados nas três primeiras ondas do Elsa para classificar a alimentação dos participantes de acordo com os quatro grupos descritos pelo Guia: não processados (vegetais, frutas, cereais etc.), ingredientes culinários (azeites, sal, óleos), alimentos processados (com modificações leves como adição de sal ou açúcar) e ultraprocessados, “alimentos que passaram por um longo processo industrial ao ponto de que a sua composição final nem lembra comida de verdade” (pães de forma, macarrão instantâneo, marmitas prontas, refrigerantes, entre outros).

A partir disso, os pesquisadores dividiram as pessoas em quatro grupos, de acordo com a porcentagem de ultraprocessados na dieta, e descobriram que as pessoas que comem mais desse tipo de produto (acima de 20% da ingestão diária) têm uma queda 28% maior na performance cognitiva do que as que comem menos (abaixo de 20%).

Para tornar mais palpável o que isso significa, a pesquisadora explica que 20% de calorias diárias vindas de ultraprocessados equivalem a, por exemplo, míseras três fatias de pão de forma por dia.

Com informações do Jornal da USP

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