segunda-feira, janeiro 30, 2023
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Jovem Pan: demissões, limpeza de conteúdo e investigação contra desinformação golpista

O jornalista Lúcio Flávio Pinto faz uma importante consideração sobre matéria do Intercept, que abordou as mudanças e as investigações que ocorrem na Jovem Pan, que desde o fim das eleições, vem demitindo jornalistas pró-golpe e insulfrando o extremismo político na direita brasileira.

No artigo Liberdade: um dos nomes da democracia, de Lúcio Flávio Pinto

Durante os últimos quatro anos, o Brasil sofreu uma ofensiva da direita, apoiada, incentivada e insuflada pelo governo Bolsonaro, para negar a democracia e se empenhar na intervenção das forças armadas até um golpe de Estado, cujo ápice foi a invasão e a depredação das sedes dos três poderes da república. O ato final da conspiração falhou. Vive-se agora a reversão dessa onda, embora ainda numa fase de transição, sujeita a chuvas e trovoadas.

O perigo é que a apuração dos fatos, a identificação dos culpados e a punição de todos que efetivamente atentaram contra a constituição, o regime e o governo, da cúpula à massa, não pode levar a uma maré contrária, sem a mesma ideologia peçonhenta do bolsonarismo, mas se valendo também e delação, perseguição e repressão. Se isso acontecer, o país continuará regido pelos extremos, a polarização e a radicalização, que, como disso foi exemplo o governo de Bolsonaro, começa pelo cerceamento da imprensa.

A matéria que reproduzo a seguir, de Tatiana Dias, editora sênior do Intercept Brasil, é um exemplo desse risco. Ela relata a trajetória recente da Jovem Pan, que se politizou como nenhuma outra emissora, há muitos anos, e acabou se tornando instrumento a serviço da causa dos radicais de direita. Os fatos se tornaram insignificantes ou inúteis. As fake-News proliferaram.

A emissora tem que ser mesmo investigada, como está sendo. Deve-se saber qual o grau de envolvimento dela com os conspiradores e quais as atitudes que assumiu à margem do jornalismo. Mas os jornalistas, se não participaram da conspiração golpista (o que Júlio de Mesquita Filho e Roberto Marinho fizeram em 1964), em conexões robustamente provadas, podem ser responsabilizados pelo que escreveram ou disseram.

Não é crime defender ideias reacionárias, fascistas, totalitárias. A democracia tem que ser suficientemente forte para abrigar todas as linhas de pensamento e absorver seus críticos e inimigos, se eles não pegam em armas, se não conspiram, se não cometem crimes. Há uma variedade de conservadores, reacionários, direitistas ou liberais na direita tanto quanto na esquerda, para usar a topografia ideológica que herdamos da revolução francesa. O intolerável é o terrorismo, que tanto esquerda quanto direita às vezes cultivam e usam.

Jornalistas como os que se comportaram lamentavelmente na Jovem Pan, incluindo alguns que tinham currículo profissional expressivo (casos de Augusto Nunes e Guilherme Fiúza), têm pleno direito de pensar e se expressar com plena liberdade. Não podem ficar sob o guante da censura e da perseguição. Se não é capaz de perceber esse direito, a democracia que tanto está sendo louvada neste momento não merece esse nome. Não é digna de confiança e adesão.

Segue-se a matéria de The Intercept.

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­A limpa na Jovem Pan

Emissora é investigada e vídeos evaporaram.

De terça para quarta-feira, a Jovem Pan passou por uma limpa em seus canais no YouTube. O canal dedicado ao Morning Show, um dos principais programas da emissora, teve 1.515 vídeos escondidos de um dia para o outro.

O robô da Novelo, empresa de análise de dados que faz sistematicamente uma ronda por canais de direita, também detectou que só no canal do programa “3 em 1”, haviam sido 3.666 mil vídeos apagados no mesmo período. O Jovem Pan News ainda perdeu 77 vídeos. No total, 5.258 vídeos evaporaram dos canais da Jovem Pan do dia para a noite.

Na quarta-feira, a emissora divulgou um comunicado afirmando que sofreu um ataque em seus canais, o que poderia explicar a limpa. O incidente foi confirmado ao Intercept pelo YouTube. Na madrugada de terça para quarta, os perfis da emissora foram alterados para o nome “Tesla News” e “Tesla Event”.

A maioria dos vídeos apagados já voltou ao ar, mas 1.516 seguem indisponíveis, segundo uma nova ronda do robô feita na noite de quarta-feira. Foram colocados como “privados” pelo dono do canal – ou seja, não acessíveis para o público e não detectáveis na busca. São conteúdos de 2015 a 2022. Um outro vídeo, uma transmissão do programa Linha de Frente de terça-feira, 10, também foi apagado. O Google afirmou ao Intercept, na quarta-feira, que os acessos já haviam sido restabelecidos.

O ataque e o sumiço dos vídeos aconteceram dois dias depois que a emissora virou alvo de uma investigação do Ministério Público Federal de São Paulo por espalhar notícias falsas que colocam em risco a democracia brasileira.

O inquérito instaurado pelo MPF na última segunda-feira, 9, detalha uma série de conteúdos da emissora que incitaram o golpismo e questionaram o processo eleitoral e a democracia – em uma escalada de ataques que culminaram no ato terrorista de 8 de janeiro, em Brasília. Para o MPF, a emissora veiculou “numerosas falas com potencial para incentivar e mesmo instigar atos antidemocráticos”.

O inquérito cita uma série de conteúdos problemáticos. Em um vídeo, por exemplo, a ex-jogadora de vôlei Ana Paula Henkel diz que “(Não é possível) saber se tivemos fraude, porque as urnas não são auditáveis, não existe o voto físico”. Em outra, Rodrigo Constantino afirmou que a eleição de Lula era “fruto de um malabarismo do Supremo”. Zoe Martinez também “defendeu expressamente que as Forças Armadas destituam dos Ministros do Supremo Tribunal Federal”, segundo o documento.

A reação da emissora foi imediata. Um dia depois da abertura da investigação, a Jovem Pan anunciou a demissão de quatro comentaristas: os próprios Rodrigo Constantino, Zoe Martínez, Paulo Figueiredo e Marco Costa. Augusto Nunes e Guilherme Fiúza já haviam sido demitidos na semana seguinte à eleição de Lula. Ana Paula Henkel saiu logo depois. Outra consequência da investigação foi a saída de Tutinha da presidência da emissora.

O MPF fez uma série de questionamentos à emissora, incluindo informações sobre seus comentaristas. Também exigiu do Google, responsável pelo YouTube, informações detalhadas sobre as postagens da emissora, incluindo os canais e vídeos que foram alvo de moderação de conteúdo. O procurador também pediu que o YouTube preserve cautelarmente a íntegra de todos os vídeos publicados de janeiro de 2022 até agora.

“O MP, assim que instaurou o inquérito, determinou que fosse preservado todo o conteúdo para evitar qualquer perda”, disse um dos procuradores do caso ao Intercept. Sobre os vídeos apagados, o órgão afirmou que irá verificar os desdobramentos. Em ocasiões anteriores, a empresa foi capaz de recuperar o conteúdo perdido, o que não necessariamente impede possíveis investigações.

O Intercept procurou a Jovem Pan questionando o posicionamento da empresa sobre o inquérito e sobre os vídeos que sumiram do canal. A assessoria de imprensa que atendia a emissora em 2022 não é mais a responsável pelo atendimento. A Jovem Pan não respondeu ao pedido de informações enviado diretamente à sua caixa de mensagens.

Ao Intercept, o Google confirmou o ataque, mas disse que não irá comentar o inquérito.

A Jovem Pan, vale lembrar, foi considerada “case de sucesso” como canal de notícias pelo Google, como contei em uma newsletter do Intercept em agosto de 2022. Chegou a receber em 2018 300 mil dólares da big tech para consolidar seus canais no YouTube, de acordo com uma reportagem da piauí.

Em novembro de 2022, no entanto, os canais da emissora foram desmonetizados pela gigante de tecnologia. Em nota, o Google afirmou que o canal Os Pingos nos Is, da emissora, havia incorrido “em repetidas violações das nossas políticas contra desinformação em eleições e nossas diretrizes de conteúdo adequado para publicidade, incluindo as relacionadas a questões polêmicas e eventos sensíveis, atos perigosos ou nocivos, além de outras políticas de monetização”.

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